Fomos todos visitar o Carlos Mônaco, há algumas semanas, na livraria Ideal, próxima à rodoviária de Niterói, quase ao lado da redação do jornal O Fluminense. Alguns de nós já conheciam o lugar; no ano passado, eu e Vanessa conversamos com Mônaco sobre a Biblioteca de Niterói, cujo acervo ele conhece bem, pois tem grande interesse em temas relacionados à memória fluminense; eu, aliás, há muitos anos imploro por descontos no sebo mais antigo da cidade; Iara o conhece dos chás esporádicos oferecidos pelos membros da Academia Fluminense de Letras – da qual ele faz parte. Todos nós, entretanto, já ouvimos falar do Carlos Mônaco, por um motivo ou por outro.
Meio envergonhados e sem muita ideia de como proceder, chegamos à livraria Ideal, na rua Visconde de Itaboraí, por volta das dez da manhã. Iara havia feito o contato, e o sr. Mônaco nos recebeu calorosamente, embora um pouco equivocado em relação ao motivo da “entrevista”: na verdade, ele realmente pensou que se tratava de uma entrevista; a todo momento nos perguntava “estão gravando isso” ou dizia “anotem aí o que eu falei, é importante”. Carlos Mônaco passa parte do dia conversando com os conhecidos do bairro, aboletado numa cadeira de plástico à beira do “Calçadão da Cultura”, devidamente sinalizado num mosaico de pedras portuguesas, à direita de sua loja. Diversas vezes interrompeu o papo para cumprimentar conhecidos, que ele apresentava como o jornalista X, do qual já devíamos ter ouvido falar, ou o poeta Y, aquele dos decassílabos perfeitos e que tanto fizera sucesso há não muito tempo – vinte, trinta anos apenas. E a nós também apresentava, sempre se desculpando pelo lapso em confundir nosso curso – que definitivamente não era o de jornalismo.
“O que vocês querem saber”, perguntou. Iara explicou o motivo de nossa presença, identificado-nos como alunos da disciplina Desenvolvimento de coleções. Queríamos saber como ele havia montado seu acervo, e voltamos setenta anos na história de Niterói para conhecer Silvestre Mônaco, que inaugurou a livraria, em outro local, onde vendia revistas e jornais. Uma vez instalado na rua Visconde de Itaboraí, passou a vender, além de artigos de papelaria, livros – e livros usados. Como todo livreiro de sebo, adquiriam coleções particulares, geralmente de parentes de um bibliófilo falecido ou de alguém apenas querendo espaço. Comprava-se livros a quilo também, dependendo do material – daí essa maravilha que conhecemos como saldo.
Ouvimos atentamente a bonita estória da livraria Ideal. Silvestre Mônaco virou nome de rua em Niterói, batiza escolas e bibliotecas pela cidade e criou uma tradição mantida pela família: seu neto hoje também cuida dos livros, e seus bisnetos vez ou outra visitam a loja, escondendo-se entre as estantes atulhadas. Mônaco, o filho, tocou o negócio após a morte do pai, e seu grande interesse pelas cidades do norte fluminense fez com que reunisse farto material sobre o tema, sobretudo Niterói. Não tão recentemente, “doou” à BCG seu acervo de memória fluminense. Dizemos doou, entre aspas, porque o acervo está no prédio da biblioteca central em regime de comodato, ou seja, ele ainda pertence a Mônaco, mas está sob os cuidados de pessoal especializado e disponível ao público, podendo, um dia, ser restituído. Nós conhecemos a (conturbada) estória, e ouvimos dele como e por que resolveu se “desfazer” do acervo. Ninguém teve coragem de corrigi-lo ou questioná-lo a esse respeito, e seguimos em frente.
A livraria Ideal, ao longo de sua história, recebeu muitos convidados ilustres, uma vez que em suas dependências até hoje são realizados eventos culturais, como saraus, lançamentos de livros e longas conversas sobre compra e venda de coleções. Mônaco elencou uma série de notáveis que faziam parte da história da livraria, os quais forçosa e diligentemente íamos anotando no verso de xérox de textos da faculdade. Era uma estória redonda, sem cacos, parecida com as que encontramos em pesquisas no google, e que ele vem repetindo há anos para pesquisadores e jornalistas, e que agora repetia para estudantes de biblioteconomia. Mas houve aqui um problema de comunicação.
É impossível conversar com o sr. Mônaco sem que estejamos ou fiquemos a par, por meio de inúmeras estórias, da trajetória de respeito da livraria Ideal. Fomos preparados, Julia, Raquel, Iara, eu, Deise e Vanessa, para conhecer sua biblioteca particular, e não seu acervo particular – à venda. As “bibliotecas” se confundem; são indissociáveis, e Mônaco parece ser mais fascinado pelos escritores e pelo objeto livro do que pelas linhas que este abriga e o outros escrevinham. Os relatos sobre José Cândido de Carvalho à época do lançamento de seu livro mais famoso, O coronel e o lobisomem, jogando conversa fora, na companhia de outros escritores, livreiros, amigos, cigarros e cafés, à beira do Calçadão da cultura; os acervos de memória fluminense doados a outras instituições, além da UFF, cujas cerimônias de inauguração Mônaco esteve presente; os projetos culturais que a livraria acolhe ou pretende acolher até o fim do ano; sua participação como homenageado no LIHED, e o lançamento do livro que [re]conta a estória de vida do “sebo” Ideal – esses fragmentos, pontuados por cumprimentos aos passantes, lembranças de poetas falecidos e o estabelecimento-relâmpago de preços nos saldos da loja nos fizeram esquecer de nosso verdadeiro escopo.
E meio a contragosto, Mônaco abriu o jogo conosco: não tem mais livros. Já doou seus jornais antigos para hemerotecas da cidade, desfez-se de coleções inteiras (ou entregou-as sob as leis do comodato) – e não tem mais livros. Tem, na verdade, o que considera um pequeno acervo, no apartamento do Fonseca: cerca de mil e quinhentos exemplares sobre – o que mais? – memória fluminense, tema que o atrai mais do que qualquer poema escrito por amigos ou romance mais vendido em sua loja. Não estão catalogados, mas dispostos afetivamente ao longo de estantes que só pudemos imaginar, pois não as vimos. O convite não veio e o pedido para vê-lo não foi feito. Apenas sorriu quando perguntei se os livros estavam onde ele queria que estivessem. Os adquire, aparentemente, sem muito esforço; deu a entender que “tropeça” neles. E do jeito que gosta de doar material, em breve sua biblioteca estará ocupando espaço em algum acervo temático de Niterói. E aí ele iniciará uma nova coleção.
Despediu-se de nós, após duas horas de conversa (apesar de sentir-se e agir como se estivesse numa coletiva), convidando-nos para um cafezinho no bar ao lado; nós nos esquivamos, talvez por pensar que a gentileza era só gentileza mesmo, e que deveríamos recusá-la. Percorremos a loja, mas nada encontramos. Não sabíamos, na verdade, o que procurávamos, e se havia mesmo uma busca em andamento. “Não consegui encontrar nada”, falei, e Mônaco sorriu, bufou e disse “é mesmo? Eu não encontro nada aí há anos. É um sebo, ora, estamos sempre recebendo e nos desfazendo de alguma coisa”. De alguma forma, a livraria se torna o macrocosmo da biblioteca de Mônaco; ele desfaz-se, esporadicamente, de seus acervos, assim como desbasta o material que chega à livraria Ideal: estes para o saldo, aqueles para venda, esses outros para o lixo. Não precisamos ver os livros de Mônaco, enfileirados num apartamento no bairro do Fonseca: ali, na Visconde de Itaboraí, tivemos uma amostra de seu trabalho e de sua vida, bem como a história da cidade e de sua família.







